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Fiocruz lança 2° Boletim Socioepidemiológico Covid-19 nas Favelas

em sábado, 14 de novembro de 2020

 

Realizado pela Fiocruz, o 2° Boletim Socioepidemiológico Covid-19 nas Favelas mostra que o contexto de baixa testagem para Covid-19 no município do Rio de Janeiro ainda é uma realidade. A maior frequência de casos da doença foi observada nos bairros sem favelas e de baixa concentração destas. O estudo analisou os dados oficiais disponibilizados pela prefeitura de 22 de junho a 28 de setembro.


Segundo a análise, os bairros com alta e altíssima concentração de favelas apresentaram no total 2.529 casos de Covid-19 (5% do total do município) e 111 óbitos (6% do total do município) pela doença. A iniciativa tem como objetivo analisar a Covid-19 nas favelas do Rio do Janeiro, abordando indicadores como frequência, incidência, mortalidade e letalidade por sexo, raça/cor e idade. 

Em julho e agosto, os bairros que apresentaram as maiores taxas de incidência foram Centro, Joá, Bonsucesso, Gávea, Humaitá, São Cristóvão, Vista Alegre e Praça da Bandeira. Apesar de serem classificados com baixa concentração de favelas, os bairros da zona Oeste, em especial Campo Grande, Bangu, Realengo e Santa Cruz, concentraram a maior frequência de óbitos. As maiores taxas de letalidade foram observadas em Barra de Guaratiba (16,67%), Senador Camará (12,05%), Vila Militar (11,11%), Cosmos (11,03%) e Santíssimo (10,7%).

A taxa de incidência e taxa de mortalidade por raça/cor foi cerca de duas vezes maior na população negra do que na população branca nos bairros sem favelas. Nesse sentido, mesmo em áreas onde há o predomínio da população branca, quem mais adoece e morre são os negros. "A melhora observada no preenchimento do campo raça/cor foi fundamental para a elaboração dessas análises", explica o pesquisador da Fiocruz André Perisse, um dos coordenadores do estudo.

Em relação à idade, o risco de adoecer por Covid-19 começou a aumentar a partir dos 40 anos. "O risco de morrer por Covid-19 apresentou redução em todo município. Contudo, continua sendo maior em pessoas de mais de 60 anos”, observou a pesquisadora da Fiocruz Jussara Angelo, que também coordenou o estudo.

A pesquisa observou um atraso expressivo nas notificações por Covid-19 no município do Rio de Janeiro. Isso levou os pesquisadores a questionarem como tem sido feito o trabalho de vigilância epidemiológica do município e das instituições de governo, no que se refere à publicização e acesso à informação em saúde. A sanitarista Bianca Leandro, que integrou o estudo, destacou que, diante de uma emergência sanitária, a disponibilidade da informação deve ser feita o mais rápido possível para que possa subsidiar estratégias de controle para a doença e a tomada de decisão.

Sala de Situação Covid-19 nas favelas

O Boletim Socioepidemiológico Covid-19 nas Favelas é elaborado integrando dados oficiais do Painel da Prefeitura, dados dos painéis das unidades de saúde, dados populacionais e cartográficos obtidos no Instituto Pereira Passos e do jornal comunitário Voz das Comunidades. A pesquisa conta também com narrativas de interlocutores do território que, através de suas experiências de vida e trabalho em diferentes regiões da cidade, colaboraram com a produção do material. 

O Boletim é um produto da Sala de Situação Covid-19 nas Favelas, vinculada ao Observatório Covid-19 da Fiocruz. A Sala tem diversos objetivos, tais como a produção de informação para apoiar o monitoramento epidemiológico e social da Covid-19 em favelas, inicialmente na cidade do Rio de Janeiro. 

De acordo com dados do Censo 2010, estima-se que 22% dos habitantes do município do Rio de Janeiro moram em áreas de favelas. Para entender a distribuição da Covid-19 na cidade, construiu-se uma tipologia urbana, cuja classificação dividiu os bairros em cinco áreas: sem favelas, concentração baixa, concentração mediana, concentração alta e concentração altíssima.

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COVID-19 em um mundo urbano JULHO 2020 - ONU

em quarta-feira, 4 de novembro de 2020

 


A atual pandemia mostrou que a sociedade é capaz de rápida transformação e adaptação. Nunca foi tão urgente evitar um retorno ao status quo pré-pandêmico e, em vez disso, transformar as cidades globalmente para resiliência, inclusão, sustentabilidade verde e econômica no futuro. Sabemos que isso é possível.

Um futuro urbano inclusivo é necessário para a resiliência. A pandemia exacerbou as desigualdades existentes, com as falhas mais nítidas evidentes em nossas cidades. Sem cidades inclusivas e desenvolvimento urbano, os impactos de choques e estresse futuros podem ser tão agudos - ou maiores do que foram - durante o surto atual. Se as cidades continuarem a ser totalmente divididas em termos de renda, acesso a serviços, raça e status de migração, não deixar ninguém para trás será cada vez mais difícil. Investir em cidades inclusivas significa investir em nações inclusivas.

A redução das desigualdades urbanas é a pedra angular para garantir que todos estejamos melhor preparados para choques e crises futuras e sejamos capazes de prosperar. A redução das desigualdades urbanas é a pedra angular para garantir que todos estejamos melhor preparados para choques e crises futuras e sejamos capazes de prosperar.


ORIGINAL E COMPLETO DEVE SER LIDO EM :


https://www.un.org/sites/un2.un.org/files/sg_policy_brief_covid_urban_world_july_2020.pdf




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Cidades são transformadas durante a pandemia



 Figura 1 - super ilhas de Barcelona calles del Comte Borrell, Tamarit y el Parlament. Foto: Ajuntament de Barcelona 2020

Cidades são transformadas durante a pandemia

Com sua profunda alteração em nosso cotidiano, o corona vírus ressaltou a profunda desigualdade que existe no desenho de nossas metrópoles. É hora de mudar a arquitetura das cidades.


 BARCELONA, Espanha - Guallart, um estúdio de arquitetura de Barcelona, ​​venceu o concurso internacional para construir a primeira metrópole pós-pandêmica, a Nova Área de Xiong'an, a cerca de 120 quilômetros de Pequim. Incluirá fontes renováveis ​​de energia, centros de produção industrial não poluentes, usinas de reciclagem, caixas d'água de chuva e pomares verticais, seguindo os preceitos da bioeconomia circular.

Cada casa terá uma varanda para lazer e cultivo, em prédios de madeira que contarão com impressoras 3-D no térreo e estufas nas coberturas. Para chegar a supermercados, bibliotecas, cafés e parques, será privilegiado o caminhar, andar de bicicleta e o transporte sem passageiros. Tudo é projetado, portanto, para tornar os confinamentos futuros mais suportáveis.

Durante os últimos meses, nossas vidas cotidianas se limitaram ao ambiente doméstico, familiar e de vizinhança. Jardins, calçadas, áreas verdes e ciclovias tornaram-se protagonistas urbanos. E então ficou mais evidente do que nunca que as cidades contemporâneas são terrivelmente desiguais. Quando todos fomos forçados a lavar continuamente as mãos com água e sabão, a realidade nos lembrou que muitas áreas marginalizadas em todo o mundo não têm água potável.

A metrópole do século 21 está cheia de carências. Da superlotação humana nos bairros mais antigos ao erro das cidades-dormitório, passando por acampamentos urbanos, há muitos habitats inadequados tanto para a quarentena quanto para aquele novo normal que expande ainda mais a distância entre quem pode trabalhar em casa ou nos cafés de seu bairro, sem expor sua saúde, e quem não tem casas espaçosas ou precisa viajar vários quilômetros todos os dias. Por meio da arquitetura e do urbanismo, as elites ampliam seu espectro de dominação.

A pandemia continua a aumentar a desigualdade. Milionários se tornaram ainda mais milionários. Aqueles com terraço e luz natural têm mais ferramentas para lidar com o esgotamento psicológico e a claustrofobia. Aqueles que tinham uma segunda casa com jardins mudaram-se para elas. É urgente que as cidades aproveitem esses meses de transição para promover estratégias que permitam aos seus cidadãos com menor poder aquisitivo também sobreviver, econômica e psicologicamente. Para isso, devem redistribuir os espaços e garantir o acesso aos benefícios coletivos.

Nos últimos meses ocorreram várias mutações urbanas que aproveitam a oportunidade que toda crise implica. Desde maio, o uso de bicicletas cresceu 76% em Berlim; em algumas áreas de Londres, o aumento este ano foi de mais de 400% e, em Nova York, de 1000%. Lima está expandindo sua rede de ciclovias. A pandemia recuperou a ideia de cidade dos quinze minutos: tudo o que realmente precisamos para nosso bem-estar tem que estar, no máximo, à essa distância.


Figura 2 - super ilhas de Barcelona. Foto: Ajuntament de Barcelona 2020

Na minha cidade, Barcelona, ​​a pandemia mostrou que o experimento das super ilhas foi um sucesso. De fato, no projeto de Vicente Guallart e de sua equipe para a cidade chinesa autossuficiente há ecos dessas unidades urbanas, paisagísticas e para pedestres. Em torno de uma delas, a do distrito tecnológico conhecido como 22@, a prefeita Ada Colau anunciou que a prefeitura vai promover a construção de 15.800 moradias, a maioria delas de proteção oficial (com preços acessíveis) ou para aluguel. Berlim já havia congelado os aluguéis no início do ano por cinco anos. E, na China socialista, todas as casas em Xiong'an serão estatais, para que famílias de diversas origens sociais possam coexistir na nova cidade.

Como diz César Rendueles em Contra a igualdade de oportunidades. Um panfleto igualitário, brutal "níveis de concentração de riqueza só são possíveis à custa de uma ortopedia social implacável." O pensador espanhol lembra em seu novo livro que, após a Segunda Guerra Mundial, os países que não permaneceram na órbita da União Soviética realizaram uma “ampla reforma de sua estrutura econômica e das instituições públicas com o objetivo de limitar a liberdade mercado e consolidar uma redução drástica das desigualdades materiais ”. Assim nasceu a fugaz sociedade de bem-estar, que começou a ser liquidada nos anos oitenta, com as políticas neoliberais e a privatização de empresas públicas.

Enquanto alguns Estados promulgam novos impostos sobre grandes fortunas e a introdução de uma renda básica universal está ganhando adeptos em todo o mundo, está ficando cada vez mais claro que esses momentos excepcionais exigem medidas igualmente históricas.

O Prêmio Nobel da Paz 2020 para o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas também é merecido para os inúmeros bancos alimentação que nos últimos meses multiplicaram seu número de usuários diários. Todos nós vimos as filas crescerem fora das portas dos centros de nossos bairros.

A Anistia Internacional recordou que a habitação é um dos direitos humanos fundamentais e uma chave para a recuperação após a pandemia, que castigou com particular força os campos de refugiados e assentamentos informais, onde 24% da população urbana do planeta reside. Os escritórios de arquitetura do mundo, que estão imaginando as casas dos próximos anos, não podem esquecer dos 1,8 bilhão de pessoas que vivem em condições indignas.

O objetivo do urbanismo - não o esqueçamos - é que todos vivamos melhor. A pandemia COVID-19 oferece uma nova oportunidade para testar estratégias de redistribuição e justiça. Arquitetos e urbanistas não podem deixar isso passar. E as cidades devem dotá-los de recursos. Porque há muito em jogo.

 

Jorge Carrión (@jorgecarrion21), , É escritor e diretor do mestrado em Criação Literária e do curso de pós-graduação em Criação de Conteúdo e Novas Narrativas Digitais da UPF-BSM. Seus últimos livros publicados são 'Contra Amazon e outros ensaios sobre a humanidade dos livros'  (Ed. Elefante,2020) e Lo viral (inédito no Brasil, 2020).


original pode ser lido em : https://www.nytimes.com/es/2020/10/11/espanol/opinion/ciudades-coronavirus.html 





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Cidades que aprendem com a ciência: a resposta à uma crise do design

em terça-feira, 27 de outubro de 2020

 

Areti Markopoulou

 

O coronavírus se espalhou mais rapidamente em núcleos urbanos densos, resultando em mais mortalidade do que nas áreas rurais. Tendo desenhado o diagrama do comportamento do vírus e sua propagação nas cidades, percebemos que, além de uma crise sanitária, o que vivemos hoje é também uma crise de design, da forma como planejamos e construímos nossas cidades e habitações.

A crise pandêmica que afetou o mundo é muito mais do que uma crise sanitária. Cidades superpovoadas, o transporte de pessoas e mercadorias por longas distâncias, bem como o aumento de pacientes com deficiências respiratórias devido à poluição ambiental ou interna têm sido as principais causas do crescimento exponencial do novo vírus. A Covid-19 mudou tão rápido quanto os bens de consumo mudam de uma parte do mundo para outra. E se espalhou mais rapidamente em cidades densas, resultando em uma taxa de mortalidade mais alta em comparação com as áreas rurais.

A elevada densidade das cidades e a procura do maior benefício imobiliário possível, antes da qualidade do espaço, têm levado também à existência de um grande número de edifícios "doentes" e sobrelotados. Unidades domésticas, residências e quarteirões urbanos inteiros que não possuem orientação adequada, exposição solar e ventilação natural resultam em um efeito adicional ao do vírus: a deterioração da saúde física e mental das pessoas por estarem confinadas e isoladas em casas totalmente interiores e minúsculas. Hoje, esse tipo de construção se tornou uma norma comum nas cidades, que também parecem planejadas para obrigar os cidadãos (ou produtos) a investirem muito tempo para chegar ao seu destino, tanto em transportes públicos como privados. São cidades baseadas em economias de escala, cuja produção é frequentemente centralizada por meio de fábricas remotas obsoletas.

Tendo desenhado o diagrama do comportamento do vírus e sua propagação nas cidades, percebemos que, além de uma crise de saúde, o que vivemos hoje é também uma crise de design. Os imprevistos problemas sociais e de saúde que nosso mundo enfrenta hoje e os desafios sociais e econômicos adicionais (provavelmente mais sérios) que enfrentaremos durante e após a recuperação da saúde nos incitam a repensar e reestruturar muitas das tradições de design de edifícios e da própria cidade, bem como as bases sobre as quais operaram nas últimas décadas. Repensar o design combinando-o com a ciência multidisciplinar para priorizar a qualidade de vida das pessoas é um caminho poderoso de fazer a arquitetura inovar e, portanto, gerar mudanças e um impacto positivo no ambiente construído e a sociedade que o habita.

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A atual pandemia nos mostrou que depender de sistemas 

externos não é sustentável nem resiliente. O ambiente 

construído deve ser mais autossuficiente na produção dos

 recursos de que necessita


Biologia e natureza como modelo

Se você aprender com a biologia (sintética) e a própria natureza, o projeto arquitetônico pode inovar redefinindo o ambiente construído e as cidades como organismos vivos; organismos que podem filtrar o ar, autorregular sua própria temperatura ou fornecer altos níveis de oxigênio e ventilação de qualidade. Se considerarmos que, em todo o mundo, cerca de sete milhões de mortes por ano são atribuídas aos efeitos conjuntos da poluição do ar na casa e no meio ambiente, apelamos ao projeto arquitetônico para que redefina o desempenho dos edifícios e da cidade e comande uma mudança positiva, não só na qualidade espacial, mas também no bem-estar físico dos seus habitantes.

Existem mais funções biológicas que podemos adicionar ao nosso ambiente construído, como a produção de recursos dentro de uma rede de nós interconectados. Prédios e cidades podem se tornar fractais celulares hiper conectados, capazes de produzir e fornecer recursos localmente, como alimentos ou energia, e distribuí-los entre as células. A atual pandemia nos mostrou que depender de sistemas externos não é sustentável nem resiliente. O ambiente construído deveria ser mais autossuficiente na produção dos recursos de que necessita e mais inteligente na forma como usa seus "subprodutos", como são os rejeitos. A natureza, por exemplo, não reconhece a noção de “rejeição”; todos os produtos se tornam recursos para outro sistema funcionar e viver. O ambiente produtivo construído torna-se, portanto, um sistema vivo que opera em um metabolismo circular, impulsionado pelos princípios de produção, reutilização e ciclo ascendente de recursos.



Sistema de produção de comida para fachadas de edifícios. Proyecto: Creative Food Cycles, Advanced Architecture Group, IAAC, 2019

 

A aposta por materiais naturais e orgânicos

Dado o fato de que nossos edifícios atuais são os principais poluentes de CO2 e consumidores de energia, e que o setor de construção é o principal gerador de resíduos no mundo, a arquitetura é instada a redefinir o metabolismo de edifícios e cidades. Se você aprender com a ciência dos materiais, o design arquitetônico pode promover a criação de ambientes interiores mais saudáveis, evitando plástico, chumbo e outros materiais tóxicos tradicionalmente usados ​​na construção de interiores. Compostos bio, naturais e orgânicos novos ou renovados (que incluem terra, biomassa, cerâmica e certos tipos de madeira) podem melhorar a qualidade do ar interno e reduzir doenças respiratórias, contribuindo para o resfriamento e aquecimento passivos, o que atenua, portanto, a necessidade de aumentar a estanqueidade de interiores que, por sua vez, pode ocasionar a concentração de ácaros do pó.

Em vez de materiais sintéticos altamente projetados, precisamos insistir em um novo paradigma para materiais de construção derivados de recursos naturais ou criados por fluxos de resíduos orgânicos, que podem ser transformados em novos recursos para criar produtos de engenharia civil e arquitetura que contribuam para uma nova cadeia de valor onde os resíduos ou o conteúdo orgânico são os principais recursos. Devemos também prestar mais atenção aos artesãos locais ou às comunidades de fabricantes e makers que estão contribuindo para a criação de uma variedade de “receitas” e técnicas de DIY, (“do it yourself” ou faça você mesmo) para produzir novos compostos reciclados ou de base naturais e bio. Potencializados pela cultura do código aberto e da Internet, os indivíduos e as comunidades locais podem personalizar essas novas bibliotecas de materiais para construir seus próprios refúgios de produtos "circulares".


  Uso de terra crua que se pode encontrar in situ para impressão 3d de edifícios. Proyecto: 3d printed Architecture, Advanced Architecture Group, IAAC, 2017,

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     Em uma sociedade digital acelerada, os dados coletados de bilhões de dispositivos e nossas impressões digitais são o combustível mais valioso para impulsionar os motores do planejamento sustentável.

 

Algoritmos e inteligência coletiva, ferramentas de planejamento

Finalmente, pode-se aprender com a ciência de dados e as ciências sociais. O design arquitetônico e a análise urbana podem integrar modelos estatísticos e algoritmos para prever fenômenos, incluindo epidemias ou desastres naturais, entre outros. A Internet das Coisas, tecnologias de sensores e aplicativos móveis tornaram-se ferramentas essenciais durante a crise pandêmica para monitorar, prever e prevenir focos de vírus. E também podem prever outras crises, como a climática. Em uma sociedade digital acelerada, os dados coletados de bilhões de dispositivos e nossas impressões digitais são o combustível mais valioso para impulsionar os motores do planejamento sustentável.

Mas aprenderemos ainda mais se observarmos e analisarmos a inteligência integrada nas decisões desorganizadas dos usuários em nosso ambiente construído. Ao sobrepor dados quantificados com dados qualitativos dos desejos das pessoas, podemos planejar soluções com base nas necessidades reais dos cidadãos em face do nosso futuro ambiente urbano. Assim, precisamos investir em modelos de design de inteligência coletiva que vão além da inteligência cognitiva ou artificial. A combinação de big data, inteligência artificial e inteligência coletiva (crowd intelligence) abre possibilidades únicas para cocriação e planejamento centrados no ser humano e impulsiona designs adaptativos e ​​em tempo real que atendem tanto  
às pessoas como para criar estratégias de resiliência no entorno em que habitam.

 

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O design e o planejamento devem fazer as perguntas apropriadas

 para ter um impacto positivo radical na maneira como vivemos e

 interagimos.


 


Uso de big data para detectar e reprogramar infraestruturas na cidade em tempos de pandemia . Proyecto: Reactive Pandemic Protocol, Studio: Internet of Buildings, Advanced Architecture Group, IAAC, 2019

Somos agora instados a mudar a noção de materialização, gestão e construção de nosso ambiente construído. O conceito de “cidades e edifícios duradouras ​​e de consumidoras” deve dar lugar a espaços construídos que produzem, gestionam e reaproveitam ou transformam recursos, e que operam em simbiose com seus usuários e o meio ambiente. Também temos pressa em interpretar a atual crise sanitária como uma crise de design, com criatividade e inovação no epicentro de nosso ambiente construído e de nossas cidades. As cidades e edifícios que planejamos e construímos hoje moldam os cidadãos e a sociedade. Em vez de explorar apenas estratégias e tecnologias para prever surtos ou vigiar a sociedade, o design e o planejamento precisam buscar inovação e fazer as perguntas certas para ter um impacto radicalmente positivo na maneira como vivemos e interagimos hoje, e especialmente pensando no amanhã.

O design e as tecnologias multidisciplinares tornam-se aqui aliados numa batalha sem precedentes para restaurar os efeitos do impacto da nossa construção em um mundo o qual, por seu turno, está a mudar a velocidades nunca antes concebidas.

 

Referências bibliográficas

Jacobs, J., The Death and Life of Great American Cities. Vintage, Nova York, 1992 (publicat originalment el 1961). Edició en castellà: Muerte y vida de las grandes ciudades. Capital Swing, 2011.

Surowiecki, J., The Wisdom of Crowds. Anchor, Nova York, 2005. Edició en castellà: Cien mejor que uno. Urano, 2005.

Markopoulou A., Yuan P., "Design Integration: Global Technological Advancement and Local Culture" a Sheil B., Ramsgaard Thomsen M., Tamke M i Hanna S. (eds.) Design Transactions: Rethinking Information Modelling for a new Material Age. UCL Press, Londres, 2020 (pàg. 92-98).

McDonough, W. i Braungart, M., Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things. North Point Press, Nova York, 2002. Edició en castellà: Cradle to cradle. Rediseñando la forma en que hacemos las cosas de la cuna a la cuna. McGraw-Hill, 2005.

Pauli, G., The Blue Economy: 10 Years, 100 Innovations, 100 Million Jobs. Paradigm Publications, Taos, 2010. Edició en castellà: La economía azul / The Blue Economy: 10 años, 100 innovaciones, 100 millones de empleos. Tusquets, 2011.

Armstrong R., Soft Living Architecture, An Alternative View of Bio-informed Practice, Bloomsbury Visual Arts, Londres, 2018.

Gausa, M., Markopoulou, A., Vivaldi, J., Black Ecologies. Actar Publishers, Barcelona, 2020.

Recursos digitais

Ellen MacArthur Foundation 2012, “Towards the Circular Economy: an economic and business rationale for an accelerated transition” a Journal of Industrial Ecology, Illa de Wight, consultat el 4 de febrer de 2020.

Directiva 2010/31/UE del Parlament Europeu i del Consell, relativa a l’eficiència energètica dels edificis, Diari Oficial de la Unió Europea, consultado el 4 de fevereiro de 2020.

 

 

Traduzido por paulo celso da silva com autorização expressa da autora, Dra.Areti Markopoulou

O texto original em catalão pode ser lido  em : https://www.barcelona.cat/metropolis/ca/continguts/ciutats-que-aprenen-de-la-ciencia-la-resposta-una-crisi-de-disseny

Publicações recomendadas

·         Black Ecologies (IAAC Bits 9)Gausa, M; Markopoulou, A; Vivaldi, J. Actar, 2020

 



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As Cidades depois do Covid-19: novos horizontes de transformação urbana (Barcelona Center for International Affairs)

em quarta-feira, 30 de setembro de 2020


O surgimento de uma pandemia global teve um impacto significativo em muitas esferas da vida, incluindo a vida na cidade. A complexidade do desafio que representa obriga os governos locais não só a desenvolver estratégias para dar uma resposta imediata aos diversos problemas que está a causar, mas também a antecipar cenários de intervenção urbana que permitam transformar o contexto atual em janelas de oportunidade. para repensar nossas cidades e modelos de vida.

Perante esta situação, a CIDOB e a Câmara Municipal de Barcelona renovam o desejo de colaborar no âmbito do Programa Cidades Globais com o objetivo de analisar estes novos horizontes de transformação urbana. Portanto, decidiram dar continuidade ao acordo de colaboração que permitiu a criação do Programa em 2017, com uma agenda de pesquisa revisada que será apresentada pelo Vice-Prefeito para Agenda 2030 e Transição Digital da Câmara Municipal de Barcelona , Laia Bonet, e o diretor do CIDOB, Pol Morillas.

O evento de apresentação contará com uma intervenção em streaming de Carlos Moreno, diretor científico da Cátedra eTI (Entrepreneurship Territoire Innovation) da Universidade Paris 1 Panthéon - Sorbonne, que irá explorar algumas das possíveis respostas a serem implementadas pela cidades para reconstruir o ecossistema urbano e mergulhar em uma transição digital centrada nas pessoas. Também analisará os possíveis cenários pelos quais as cidades podem passar para enfrentar a transição digital e os desafios que ela representa para a organização do trabalho e da vida das pessoas, e enfatizará a necessidade de recuperação de bairros. como epicentros da vida urbana (a chamada “cidade dos quinze minutos” que está a ser promovida em Paris).




tradução catalão - português paulo celso da silva 

O enlace para assistir a palestra de Carlos Moreno é: 

https://www.youtube.com/watch?v=5bdfa-Br4Fk 

informações adicionais :

https://www.cidob.org/noticias/lineas_de_investigacion_tematicas/ciudades_y_metropolis_globales/cidob_y_el_ayuntamiento_de_barcelona_renuevan_su_convenio_de_colaboracion_poniendo_la_mirada_en_la_ciudad_post_covid



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Repositório de informações clínicas de COVID-19 no Brasil entra em plena operação

em quarta-feira, 1 de julho de 2020

Notícia publicada em 01 de julho de 2020 pela Agência FAPESP


Plataforma criada pela FAPESP em parceira com a USP, hospitais Israelita Albert Einstein, Sírio-Libanês e Grupo Fleury, começa a disponibilizar acesso a dados de mais 177 mil pacientes, cerca de 5 milhões de exames e 9,6 mil resultados de desfecho (Imagem e legenda retiradas da Agência FAPESP)

Elton Alisson | Agência FAPESP
Após um período-piloto de testes e de consultas à comunidade de pesquisa, entrou em operação hoje (01/07) o COVID-19 Data Sharing/BR, o primeiro repositório de dados abertos do Brasil com dados demográficos e exames clínicos e laboratoriais de pacientes que fizeram testes para COVID-19 em unidades laboratoriais no país e em hospitais do Estado de São Paulo.
O repositório abriga dados abertos e anonimizados de, inicialmente, mais de 177 mil pacientes, 9.634 dados de desfecho e um total de quase 5 milhões de resultados de exames clínicos e laboratoriais realizados em todo o país pelo Grupo Fleury e na cidade de São Paulo pelos hospitais Israelita Albert Einstein e Sírio-Libanês desde novembro de 2019.
Ainda que o primeiro caso da doença no Brasil tenha sido registrado em fevereiro, pelo Hospital Albert Einstein, o período de cobertura dos dados permitirá aos pesquisadores analisarem o histórico de saúde, bem como buscar evidências de sintomas da COVID-19 em pacientes atendidos anteriormente.
Novos dados serão inseridos regularmente pelo Grupo Fleury, Hospital Sírio-Libanês e Israelita Albert Einstein e gerenciados no repositório, sediado na Universidade de São Paulo (USP). As quatro instituições disponibilizaram informações, infraestrutura, tecnologias e recursos humanos próprios para viabilizar o compartilhamento de dados.
A FAPESP está em tratativas avançadas com outras instituições de atendimento a pacientes, públicas e privadas, para compartilhar informações no repositório COVID-19 Data Sharing/BR.
A base de dados é resultado de uma iniciativa da FAPESP, em parceria com a USP, e tem o objetivo de compartilhar informações clínicas anonimizadas de pacientes para subsidiar pesquisas científicas sobre a doença nas diversas áreas de conhecimento.
“Ciência é cada vez mais uma atividade coletiva e as iniciativas de compartilhamento de dados têm se ampliado em todo o mundo. A estratégia de Open Science da FAPESP é o pano de fundo desta iniciativa. Buscamos aproveitar a crise para alavancar a iniciativa de Data Sharing sediada na USP. Nossa expectativa é que possamos não apenas agregar novos parceiros, mas, sobretudo, contribuir para que a comunidade cientifica tenha dados de qualidade para propor soluções que nos permitam enfrentar a pandemia”, diz Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP.
O repositório disponibiliza três categorias de informação: dados demográficos (gênero, ano de nascimento e região de residência do paciente) e de exames clínicos e/ou laboratoriais, além de informações, quando disponíveis, sobre a movimentação do paciente, como internações, por exemplo, e desfecho dos casos, como recuperação ou óbitos.
Em uma segunda etapa, que já está sendo planejada pela iniciativa, o COVID-19 Data Sharing/BR abrigará também dados de imagens, como radiografias e tomografias.
Contribuições de pesquisadores
O lançamento do repositório teve um cronograma de três etapas. Uma versão pequena do conjunto de dados foi inicialmente disponibilizada no dia 17 de junho para um período-piloto de consultas. Dessa forma, a comunidade de pesquisa pôde baixar os dados e começou a analisá-los e visualizá-los usando técnicas de ciência de dados (leia mais em agencia.fapesp.br/33427/).
Até o dia 24 de junho, os grupos de pesquisa interessados puderam enviar dúvidas e comentários para os responsáveis pelo repositório COVID-19 Data Sharing/BR. Nesse período, foram recebidos cerca de 30 e-mails com perguntas e sugestões de pesquisadores.
As contribuições da comunidade de pesquisa irão ajudar a melhorar as informações e a documentação do repositório.
“Todas as sugestões serão analisadas e verificaremos o que poderá ou não ser implementado em curto, médio e longo prazo”, diz à Agência FAPESP Cláudia Bauzer Medeiros, professora do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e participante do projeto.
Uma das sugestões já resultou em um pequeno ajuste na versão final do repositório. “Na maior parte das situações vamos analisar o que pode ser feito para contribuir para o maior número possível de pesquisas”, afirma Medeiros, que é membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa em eScience e Data Science.
Além de pesquisadores do Brasil, o conjunto inicial de dados disponibilizado no dia 17 de junho para consultas foi acessado e baixado por cientistas dos Estados Unidos, Portugal, Espanha, Alemanha, Bélgica, Argentina, Romênia, Holanda, Reino Unido, Índia, Canadá, França, Finlândia e Tailândia.
Iniciativas internacionais
O lançamento do repositório faz parte de um movimento da ciência global, denominado ciência aberta, com o objetivo de tornar públicos os dados utilizados em pesquisas e que ganhou maior força com a pandemia de COVID-19.
Além do repositório lançado pela FAPESP, outras agências de fomento à pesquisa no mundo estão adotando iniciativas semelhantes.
No dia 16 de junho, o Centro Nacional de Dados para a Saúde (CD2H) e o Centro Nacional de Ciência Translacional Avançada (NCATS), dos Estados Unidos, anunciaram a criação de um portal centralizado de dados clínicos de pacientes com COVID-19. A iniciativa é resultado de uma parceria com diversas agências norte-americanas, incluindo o National Institutes of Health (NIH).
De acordo com um comunicado à imprensa, a plataforma, chamada N3C (sigla em inglês de National COVID Cohort Collaborative), irá capturar sistematicamente dados clínicos, de diagnóstico e de laboratório de centros de pesquisa e prestadores de serviços de saúde participantes em todo o país e agregá-los em um formato mais padronizado e de fácil acesso, de modo a permitir que os usuários tenham novas ideias de pesquisa colaborativa.
Os dados brutos, contudo, não serão disponibilizados. “Eles utilizarão um padrão internacional que não permitirá ter acesso aos dados brutos, mas a uma interface para um sistema que permitirá solicitar análises de um conjunto de dados e a plataforma fornecerá os resultados”, explica Medeiros.
Outra iniciativa recente de disponibilização de dados clínicos de COVID-19 foi a Rede de Implementação do VODAN, na Europa.
Resultado de uma parceria público-privada, o objetivo do consórcio VODAN é tornar os dados sobre a doença públicos, de modo que sejam localizáveis, acessíveis, interoperáveis – FAIR, na sigla em inglês de Findable, Acessible, Interoperable and Reusable – e, portanto, reutilizáveis por humanos e computadores.
“Atualmente, há uma série de iniciativas listadas nessa plataforma, em todos os níveis de compartilhamento de dados, com protocolos de disponibilização bastante rígidos”, diz Medeiros.
Alguns dos diferenciais do COVID-19 Data Sharing/BR em relação a esses projetos internacionais é que a plataforma reúne dados de brasileiros, com qualidade suficiente para incluí-los em grandes estudos internacionais. Dessa forma, a iniciativa contribui não apenas para pesquisas voltadas à realidade brasileira, mas também para acelerar a pesquisa mundial na busca por uma vacina ou cura da doença, avalia a pesquisadora.
“Muitos dos dados que estão sendo colocados em plataformas internacionais são de ensaios clínicos, e não de exames clínicos e laboratoriais de pacientes como são os do COVID-19 Data Sharing”, compara.


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MidCid faz reunião de planejamento para o 2˚ semestre de 2020

em segunda-feira, 29 de junho de 2020



Além de compartilhar algumas ações desenvolvidas durante o primeiro semestre de 2020, o encontro à distância serviu para que os membros do Grupo de Pesquisa Internacional Mídia, Cidade e Práticas Socioculturais (MidCid) planejassem as atividades dos próximos meses. A reunião por videoconferência foi realizada das 9 horas às 11 horas, de 29 de junho de 2020, e permitiu que os novos membros do grupo pudessem conhecer o projeto Sorocaba 2030, iniciado em 2019.

De acordo com o líder do MidCid, professor doutor Paulo Celso Silva, o grupo publicou em seu blog ao longo das últimas semanas traduções de artigos e trabalhos de pesquisadores de vários países sobre a temática “A cidade e o COVID-19”. A iniciativa foi colocada em prática pelo professor Paulo Celso em parceria com Felipe Parra, doutorando do PPGCOM da ECA-USP e membro do MidCid. Essa atividade permitiu divulgar reflexões como a do catalão Sergi González Herrero, do espanhol Daniel Innerarity, da brasileira radicada na Espanha Fernanda Pires de Sa, do italiano Giovanni Semi, entre outros. Todos os textos podem ser consultados neste blog.

No período de adaptação às atividades à distância, os trabalhos desenvolvidos pelo grupo durante o ano de 2019 foram registrados em um artigo aceito pela revista Tríade e que deve ser publicado no próximo mês de agosto. O texto, assinado pelos professores doutores Paulo Celso Silva, Wilton Garcia e Mara Rovida, condensa o início das reflexões sobre a Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU) em Sorocaba. Essa ação também registra as atividades realizadas pelo MidCid em parceira com o Grupo de Pesquisa em Mídias Contemporâneas (MidCOM_), liderado pelo professor Wilton Garcia.

No segundo semestre de 2020, os membros do MidCid devem colocar em andamento um novo planejamento de atividades que compõem a reorientação do projeto Sorocaba 2030. Essa reorganização começou a ser planejada durante o isolamento social e deve ser consolidada ao longo dos próximos meses. Dentre as medidas redefinidas, destaca-se a proposta de repensar o papel do grupo de pesquisa no debate público sobre a Agenda 2030 em Sorocaba e propor ações afinadas com esse novo entendimento. Para isso, incluiu-se uma possível retomada do Projeto de Integração da Pós-graduação Comunicalab numa parceria com cursos de graduação e agentes sociais de Sorocaba.

A próxima reunião do grupo será realizada por videoconferência em agosto.

Texto de: Mara Rovida
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O que sabemos sobre o efeito das temperaturas no corona vírus? As diretrizes do IPCC nos ensinam a valorizar a ciência do corona vírus

em quarta-feira, 24 de junho de 2020


foto Arturo Blasco agosto 2020



Sergi González Herrero
CIÊNCIAS DA TERRA E DO ESPAÇO
22/05/2020

Estou escrevendo este artigo em maio de 2020, no início da escalada da pandemia na Catalunha. Por que começo com essa frase? Então, porque o ímpeto que a ciência tomou para tentar entender como esta epidemia global está se comportando é muito importante, o que faz o conhecimento se mover muito rapidamente. Espero, portanto, que as linhas que escrevo aqui estejam desatualizadas em pouco tempo, pelo menos no que diz respeito ao conhecimento científico que temos. Mas não quanto à filosofia expressa nos parágrafos seguintes, que visam avaliar a ciência como ela é, com suas incertezas iniciais até que as evidências sejam robustas.

Nos últimos meses, um grande número de estudos surgiu descrevendo a possível influência das temperaturas na propagação do corona vírus (por exemplo, Wang et al. 2020, Araujo e Naimi 2020, Tobias e Molina 2020) e a possível ausência de influência. (por exemplo, Juni et al. 2020, Jamil et al. 2020). A cobertura da mídia desses estudos opostos apenas confunde o cidadão e, no último caso, pode perder a credibilidade do cidadão na ciência. Muitas pessoas continuam se perguntando, como as temperaturas influenciam a propagação do corona vírus? Seremos capazes de relaxar quando o verão chegar?

Para abordar essa questão, sou a favor de usar o método de incerteza usado pelo Grupo Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), talvez um dos maiores documentos científicos da história e, portanto, impecável. no que diz respeito à utilização do método científico. Para avaliar a confiança de uma descoberta no IPCC, são avaliados o grau de concordância e a robustez das evidências. A confiança aumenta se o grau de concordância for alto e se a evidência científica for robusta, ou seja, se houver diferentes linhas de evidência independentes, consistentes e múltiplas (Mastrandrea et al. 2010). A figura a seguir mostra esquematicamente:

Esquema de evidência e concordância em relação à confiança. Como a escala de cinza sugere, a confiança aumenta no canto superior direito. Fonte: Mastrandrea et al. 2010.

Voltando à pergunta, que nos fizemos anteriormente sobre a influência das temperaturas no corona vírus, direi que os estudos científicos publicados nos mostram diferentes linhas de evidência com resultados contraditórios, ou seja, uma robustez muito baixa e também um grau de acordo muito baixo. Portanto, seguindo as diretrizes do IPCC, a confiança na relação entre temperatura e grau de infecção por corona vírus é muito baixa. E isso não significa que exista uma influência ou que deixe de existir. Tampouco significa que as várias pesquisas não sejam bem elaboradas, embora seja verdade que algumas tenham resultados mais sólidos do que outras. O que isso significa é que o estado atual do conhecimento ou a quantidade de dados que existe no momento não é suficiente para confirmar ou negar esse fato.

É uma boa ideia publicar esses resultados rapidamente, a fim de aumentar gradualmente as evidências científicas de um lado ou de outro. Também prestar serviço científico à sociedade e na tomada de decisões. Mas precisamos interpretá-los bem e ter em mente que, para essa tomada de decisão, são necessários resultados científicos sólidos para evitar erros. Em qualquer caso, nós cientistas somos responsáveis ​​por analisar rigorosamente os dados e por avaliar as deficiências que nossa pesquisa pode ter, seja por falta de dados ou porque influências muito maiores não consideradas no estudo podem mascarar os resultados. A mídia também deve ser responsável por não mediar as análises e tratar os resultados rigorosamente, tentando não definir cada uma delas como análises conclusivas, mas como evidência que nos leva a um melhor conhecimento.

Referências
Araujo M.B., i Naimi B., 2020. Spread of SARS-CoV-2 Coronavirus likely to be constrained by climate. medRxiv 2020.03.12.20034728; doi: https://doi.org/10.1101/2020.03.12.20034728
Jüni, P., Rothenbühler, M., Bobos, P., Thorpe, K.E., Da Costa, B.R., Fisman, D.N., Slutsky, A.S., i Gesink, D, 2020. Impact of climate and public health interventions on the COVID-19 pandemic: A prospective cohort study. cmaj.200920: https://doi.org/10.1503/cmaj.200920
Mastrandrea, M.D., C.B. Field, T.F. Stocker, O. Edenhofer, K.L. Ebi, D.J. Frame, H. Held, E. Kriegler, K.J. Mach, P.R. Matschoss, G.-K. Plattner, G.W. Yohe, i F.W. Zwiers, 2010: Guidance Note for Lead Authors of the IPCC Fifth Assessment Report on Consistent Treatment of Uncertainties. Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Disponible a: https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2017/08/AR5_Uncertainty_Guidance_Note.pdf
Tahira Jamil, Intikhab Syed Alam, Takashi Gojobori, Carlos Duarte, 2020. No Evidence for Temperature-Dependence of the COVID-19 Epidemic. medRxiv 2020.03.29.20046706; doi: https://doi.org/10.1101/2020.03.29.20046706
Tobías, A., Molina, T., 2020. Is temperature reducing the transmission of COVID-19 ?, 2020. Environ Res. 2020;186:109553. doi: https://10.1016/j.envres.2020.109553
Wang, J., Tang, K., Feng, K. i Lv, W., 2020. High Temperature and High Humidity Reduce the Transmission of COVID-19 (March 9, 2020). Disponible a SSRN: https://ssrn.com/abstract=3551767 o http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.3551767

traduzido por paulo celso da silva da Enciclopédia Catalana
a versão original em catalão pode ser consultada em :

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POSNORMALES: PENSAMENTO CONTEMPORANEO EM TIEMPOS DE PANDEMIAS NOTAS INTRODUTÓRIAS

em segunda-feira, 22 de junho de 2020




Os horizontes civilizantes disponíveis são vastas litanias de medicalização, tecnologia e modelos de guerra contra os vivos. Os Estados se debatem em diferentes estratégias de gerenciamento de máquinas de super-humanização que chia - oxidada, mas não obsoletas – ao ritmo de apropriação, extração e a produção. Máquinas que funcionam na medida do possível em que não são percebidas como tal, pela arte dos descarados e suas parábolas sobre a necessidade e a normalidade. Quem é o soberano das democracias contemporâneas? Como se resolve a controvérsia entre  saúde vs. economia? Que imagens do ser humano produzem essas máquinas discursivas?

Não há migalhas de pão que nos levem de volta à caverna para sentirmos segurxs entre suas sombras. É o nosso próprio habitat que nos sitia e nós revela como uma ameaça. O desejo de retorno a uma vida passada - montada sobre efeitos analógicos, presenciais, tridimensionais - persiste sobre a imagem fragmentária de um espelho quebrado e seu efeito de verdade sobre o real. Por acaso, as telas são a zona erógena da memória? Quais (ou quem) são as capturas da tela? Existe normalidade em algum extremo cardinal do tempo? É um estado ao qual deveríamos querer retornar ou chegar? Um feed de perguntas nos bloqueia.

Nós já aprendemos ou deveríamos ter feito: não se supõe que daremos ao futuro uma forma suportável, pelo contrário, é essencial ser hospitaleirxs com o andarilho absoluto - a singularidade que é revelada com o COVID-19 - hospedar o anfitrião e assumir plenamente as condições de possibilidade de sua existência; isto é, assumir a dimensão histórica e antropológica do vírus e, portanto, nossa responsabilidade ética no atendimento à comunidade. Assim como não devemos ver o animal (essa alteridade) como uma mancha de Rorschach - na qual nos projetarmos - não deveríamos conceber o vírus como um agente autônomo capaz de chegar e transmitir-se mais além de nossas ações.

Posnormales reúne trabalhos transdisciplinares que tratam de pensar o campo da política (público e estatal, coletiva e antagônica), com base em um slogan que propõe maneiras de sobrepor-se e adaptar-se ativamente aos cenários traumáticos - morte e isolamento - aos quais nos mostra o estado de pandemia e as lógicas de imunização neoliberais / neo-individuais.

Depois de Sopa de Wuhan y La Fiebre, aparece este livro para pensar no que está por vir. Ainda é urgente perfurar os discursos da ordem estabelecida, pois temos apenas algumas poucas previsões, escritas com gramáticas do passado. Gramáticas que, como toda linguagem, são em si mesmas um contrato (uma textualidade performática) e, como tal, devem ser revisadas para agenciar outras que sejam capazes  de interromper as figuras totalizantes e suas ficções reguladoras.

Esta terceira edição, exposta a leituras imprevistas de um público sem fronteiras, apoia nosso compromisso: Enquanto o confinamento persistir, a ASPO continuará a publicar.

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